terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Jornal Tribuna do Pampa (Candiota) - 08 e 09 de dezembro de 2015




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MST retoma acampamento em área que agora pertence ao Incra

Cerca de 100 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) retomaram acampamento em frente a porteira da antiga fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Hulha Negra, no início da manhã desta segunda-feira, 7. A área da fazenda, que possui 443 hectares, pertencia à União e foi repassada para o Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra/RS) no último mês de novembro, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União (DOU), para o assentamento de famílias acampadas no Estado. De acordo com Ildo Pereira, da coordenação estadual do MST, as famílias são oriundas dos municípios de Candiota e Santana do Livramento. "Nossa ação representa a retomada da luta pela terra na região da Campanha e o enfrentamento de um conservadorismo muito grande que existe regionalmente em torno das nossas bandeiras. Agora, já queremos começar a produção de alimentos saudáveis", explica. Na primeira quinzena de novembro, cerca de 15 integrantes do MST já haviam montado acampamento no local, mas deixaram a área após ruralistas e fazendeiros terem feito uma espécie de ação de despejo. Os sem terra reclamaram que foram expulsos à força do local por pessoas fortemente armadas. As lideranças ruralistas negaram a acusação. 

POSIÇÃO DO INCRA - O Incra/RS, através da assessoria de imprensa, reafirmou o que havia dito há poucos dias, quando a portaria de transferência da área para o órgão foi publicada no dia 19 de novembro, no Diário Oficial da União (DOU). Conforme o Incra, a área deve se transformar em breve no 25º assentamento do município de Hulha Negra. "Com a publicação da portaria da Secretaria de Patrimônio da União (SPU), o Incra/RS vai realizar um estudo técnico para aferir a capacidade de assentamento do imóvel, determinando o número de famílias que a área poderá receber, bem como, cadastrar os atuais ocupantes e arrendatários (aqueles que manifestarem vontade e se adequarem ao perfil de beneficiário da reforma agrária poderão ser assentados). A sele- ção de famílias será feita mediante edital público e critérios estabelecidos na Norma de Execução nº 45 do Incra". Em relação específica ao acampamento montado na manhã desta segunda-feira, 7, a assessoria afirmou que ela não foi autorizada pela regional do Instituto. 

AÇÕES JUDICIAIS - Em consulta ao portal do Tribunal de Justiça do RS, verifica-se que a área é reivindicada por Rosa Alice de Almeida Sales, que atualmente está sobre as terras. Ela entrou com ação judicial pedindo usucapião do imóvel, que já pertenceu no passado a Volme Lemos (o Brito), que foi preso e condenado judicialmente em 1997 por crime contra o sistema financeiro (agiotagem), sendo que já cumpriu a pena e todos os seus bens na época foram repassados para a tutela da União, entre elas a fazenda em questão. O processo de usucapião movido por Rosa Sales tramita na 2ª Vara Cível de Bagé. Também, antes das terras serem oficialmente transferidas para o Incra/RS, Rosa Alice entrou com ação pedindo liminar contra novas possíveis ocupações do MST. Na ocasião, o juiz também da 2ª Vara Cível de Bagé, concedeu a liminar, 'determinando que o MST se abstenha de invadir a propriedade indicada na inicial, restando fixada multa diária para caso de descumprimento da determinação judicial no valor de R$ 10 mil'. Durante o dia, membros da Frente Parlamentar Intermunicipal de Proteção à Propriedade Privada, liderada pelo presidente da câmara de Bagé, Divaldo Lara (PTB) estiveram no local também. 

BRIGADA MILITAR - Conforme o comandante do 4º Grupamento de Polícia Montada de Hulha Negra, sargento Claudinei Mesquista, a Brigada Militar está realizando o monitoramento do local, mantendo a ordem e a segurança tanto na área externa da fazenda (onde está o acampamento do MST) como internamente. O sargento disse que duas viaturas, uma de Hulha e outra do Pelotão de Operações Especiais (POE) estão de forma permanente e também há reforços de prontidão caso haja necessidade. Também a BM não está permitindo que novos integrantes do MST possam chegar ao local do acampamento. Os ruralistas não haviam feito movimentação até o fim da tarde desta segunda-feira. "Neste momento não há qualquer possibilidade de confronto ou ato violento", disse o sargento ao TP, por volta das 17h desta segunda.